Ora, este fim-de-semana foi dedicado às sondagens. Uma experiência pela qual nunca tinha passado mas que já tinha em vista há algum tempo. É-nos dada uma formação no dia antes onde são explicadas as 1436 regras que deveremos cumprir para garantir a credibilidade e aleatoriedade dos resultados. Assim à primeira vista, andar a questionar pessoas sobre as suas expectativas em relação à governação e mais ainda sobre as suas condições de vida, não parece difícil. Porém, tudo muda quando chegamos ao terreno: a verdadeira prova de fogo. No Sábado calhou-me uma localidade cujo nome eu desconhecia em absoluto. Terra pequena, mas de gente extremamente afável a quem o choradinho "vá lá, responda-me a estas perguntinhas que é mesmo importante e não demora nada" resultava sempre. A maior dificuldade estava em encontrar casas e de preferência com gente lá dentro que pudesse abrir a porta e responder. Em poucas horas eu e a equipa que trabalhou comigo batemos a todas as portas e, já no desespero, começamos a repetir as mesmas casas na esperança que os seus habitantes tivessem regressado. Encontrei uma senhora queridíssima com quem não me importaria de falar o dia todo, que assim que me viu perguntou "menina, mas não me vem tirar os subsídios, pois não?". Mesmo desconfiada, respondeu ao questionário e convidou-me a entrar. No fim do dia, já de regresso, pude concluir que, pela amostra que me calhou, aquela é uma freguesia marcada pela desigualdade social. Se por um lado existem grandes complexos habitacionais de gente que não sente, e ainda bem, a crise, por outro temos as pessoas que moram em casinhas modestas, que vivem da pouca reforma que mal dá para comer. Se por um lado existem os fervorosos adeptos do sistema de saúde privado por outro, temos aquelas pessoas que deixaram de ir às urgência dos hospitais públicos porque são muito caras.
No Domingo, a conversa já foi outra. Calhou-me na rifa uma freguesia que inicialmente me pareceu muito bem por ter muitos habitantes mas que no fim se revelou extremamente difícil. E eu, até certo ponto, consigo compreender perfeitamente. As pessoas estão cansadas que lhes batam à porta para lhes impingirem tudo e mais alguma coisa e têm medo que as queiram burlar.
Houve momentos em que percebi como deve ser duro andar a vender de porta em porta tendo que cumprir objetivos rígidos, sendo que eu apenas pedia cinco minutos de disponibilidade. Um senhor, claramente indisposto, respondeu-me " não acha que a esta hora deveria estar no sofá em vez de me estar a fazer esta merda destas perguntas?". Caro senhor cuja identidade eu desconheço completamente (e mesmo que conhecesse jamais revelaria!) claro que a um Domingo, àquela hora, com aquele frio e com aquela chuva, eu preferia cem mil vezes estar em casa à lareira de peúgas até ao joelho do que andar a tentar perceber qual o seu ponto de vista em relação ao estado do país, acontece que aquele era o trabalho que me comprometi a fazer e queria levá-lo a cabo o melhor possível. Só isso. Acredite que não era um esquema para lhe tentar sacar o número de telemóvel nem tão pouco o estava a tentar evangelizar.
Além de ter sido destratada 345 vezes, outras houve em que tive de fazer entrevistas da campainha do prédio, o que também resulta espetacularmente bem porque além de ter que me pôr em bicos de pés para chegar ao intercomunicador e não estar sempre a pedir à pessoa o favor de repetir a resposta, parte das respostas perdia-se com o barulho dos carros que iam passando. Mais uma vez repito, compreendo perfeitamente, moro num apartamento e morro de medo de atender a campainha quando estou sozinha em casa e se atender, por um qualquer rasgo de loucura, não abro nunca a porta e tento despachar a pessoa a 1000 à hora.
Mas nem tudo é mau, apesar de nos meios maiores as pessoas serem mais cautelosas e fazerem mais perguntas do tipo "então e isto é para quê mesmo? e pode mostrar-me as suas credenciais?" também as há simpáticas como foi o caso de uma senhora que me abriu a porta do prédio para que eu pudesse entrevistar todos os vizinhos mas deixou bem claro que só o fazia por confiar no meu trabalho. Querida senhora que me abriu a porta, muito obrigada, espero não a ter desiludido, depois dos questionários feitos vim embora e fechei a porta como combinado. Tudo certinho e direitinho.
Nesta última, já achei que o nível de vida era mais homogéneo apesar de não ser, evidentemente, o mesmo para todas as pessoas. É incrivel como o contacto directo com as pessoas nos dá uma ideia tão brutalmente próxima da realidade.