O Carnaval é uma das alturas do ano que mais me aquece o coração. E isto tem várias explicações. É certo que morar na cidade capital do Carnaval ajuda mas este é um amor antigo que me incutiram desde miúda e que se mantém até hoje. Ainda mal caminhava e lá ia eu no cortejo, pela mão da madrinha, no meio dos grandes como eu tanto gostava. Bem pequenina e redondinha, à altura de uma verdadeira mascote. O grupo chamava-se "Malmequeres" e durante oito anos foi a minha segunda casa. Entretanto, a conjugação de variadas adversidades levou ao seu fim mas eu confesso que mantenho a secreta esperança de o recuperar um dia. Depois, e porque ver o carnaval da bancada não é para mim, mandei-me para um registo completamente diferente: as escolas de samba. Ensaios frenéticos, ritmos acelerados, bateria furiosa, brilhos, plumas e muita cor. Foram doze bons anos de samba no pé. Entretanto, estúpida que só eu, voltei para as bancadas e, logicamente, não gostei porque o sentimento é o mesmo de estar numa festa e ter perdido a melhor parte. No fundo, perde-se a essência daquilo que é o Carnaval. É apresentar uma maquete em Setembro e esperar que seja aprovada, é reunir na sede para tomar decisões importantes, é tirar medidas na costureira, é provar o fato e ver que afinal não tem nada que ver com a maquete e ai meu Deus que agora estou desiludida mas vamos lá ver como é que isto resulta no fim, é ensaiar quantas vezes forem precisas por semana porque o esquema tem que sair perfeito e as alas ainda não estão alinhadas, é chegar à noite depois de um dia de trabalho e ter de ir à sede para bordar e fazer manualmente todos os acessórios necessários para embelezar e abrilhantar o fato, é ver o tempo a passar e continuar a haver um montão de coisas para tratar, é começar a stressar, é chegar o dia e é sair à rua. Aplausos daqui e aplausos dali. Correu bem e estamos juntos em mais um ano. Lágrimas. Nostalgia porque passou tão depressa. Desfilar é uma sensação maravilhosa que traz consigo o culminar de vários meses de esforço colectivo.
Decidida a viver de novo este frenesim, falei com uma amiga e lá vão as duas para um grupo de passerele que num destes eu nunca tinha andado e a ver vamos como é que me safo. Para já, estou muitíssimo entusiasmada, o esquema está um máximo e até acho que, finalmente, comecei a atinar com ele e a saber fazê-lo sozinha e sem ter que olhar para a menina da frente. A contagem decrescente já começou e já anda toda a gente a exibir orgulhosamente os casacos dos seus respectivos grupos. Diz-me em que grupo andas e dir-te-ei quem és. As luzes de Natal foram substituídas por motivos Carnavalescos e não há-de faltar muito para que comecemos a ouvir na rua que "cachaça não é água não, cachaça vem do alambique e a água vem do ribeirão". Venham de lá as bolhas nos pés e as horas perdidas de sono. A vida são dois dias e o Carnaval são três, que comece a FESTA!

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