terça-feira, 9 de abril de 2013

O processo de Kafka



Era suposto ter começado por ler primeiro "O cemitério de pianos" que já dorme tranquilamente na minha mesinha de cabeceira e até já tinha falado sobre a vontade de ler a obra aqui no blog, mas acabei por devorar primeiro "O processo" de F. Kafka. Não é que um me motive mais do que o outro até porque o estilo, provavelmente, não deve ser sequer comparável mas porque tinha muita curiosidade em saber como é que este pequeno génio via a justiça do seu tempo. Toda a gente me dizia que é um clássico e que é um daqueles livros que ninguém podia passar sem ler e eu confirmo-o mesmo sendo um livro inacabado. Aliás, acho que isso até lhe dá uma certa graça.
O livro conta a história de Josef K., um homem que se vê envolvido nos meandros da justiça por ser alvo de um processo judicial, como o próprio titulo indica, que não entende e ao qual nunca deu origem. K. era gerente bancário, levava uma vida banal e pacata até ao dia em que lhe entram quarto adentro para lhe dizer que ele era acusado, sabe-se lá de quê. Entretanto, com o decorrer da trama fiquei assustada com a intemporalidade e actualidade da obra. A partir do momento em que K. é constituído arguido não mais teve paz, não só porque todos o identificavam como sendo culpado - ainda que a sua culpa nunca tenha sido provada em sede própria - mas também porque os tentáculos da justiça chegavam a todo o lado por onde ele passava, como se de uma força omnipresente e omnipotente se tratasse. A cada dia que passava a sua energia ia sendo mais e mais consumida por essa força invisível e capaz de lhe retirar tudo quanto ele mais precisava:  força, discernimento, ponderação, coragem, clareza de raciocínio, lucidez. Por outro lado, uma vez acusado, culpado para sempre. Estava legalmente previsto um mecanismo que poria um ponto final no processo mas acontece que esse mecanismo nunca foi accionado ou se o foi nunca funcionou. Assim, advogados e réus trabalhavam apenas no sentido de prolongar o processo o mais possível  prolongando, consequentemente, a culpa ad eternum. Para tanto, era preciso venerar os juízes certos e estabelecer as devidas influências, criando-se, assim, instâncias judiciais paralelas onde apenas os mais habilidosos ou experientes se saberiam movimentar. Para os tribunais não era imperativo fazer justiça, conceito que nunca se sabe muito bem até onde poderá ir, nem aferir graus de culpa, nem julgar com base em factos concretos. Não, o tribunal funcionava pela força dos favores e nisto é como diz o povo "uma mão lava a outra".  
De papelada infinita, palavras caras, citações ocas e lugares comuns se fazia a indispensável burocracia. Requerimento para um lado, petição para o outro e o processo sempre na mesma fase. Mais outro requerimento porque no primeiro faltava uma assinatura, ou uma vírgula. E o processo sempre na mesma fase. Até à exaustão e à decadência.

Pergunto-me, mudou alguma coisa?

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