Ainda não posso dizer que já esteja no espírito natalício.
Este ano não só não fiz a árvore de Natal como ainda nem sequer a tenho.
Decidimos lá em casa, deitar ao lixo a que existia. Pobrezinha! Mantê-la
viva seria prolongar-lhe o sofrimento.
Tenho andado a percorrer vários sítios, hipermercados e lojas
de decoração, para encontrar aquela árvore. Aquela que, esperamos, queremos que
dure o tempo suficiente para conhecer toda a família e contar muitos natais.
Mas não está fácil. Eu quero branca, a mãe diz que branca não, o pai acha que
não combina com a sala, o namorado, por seu turno, defende que árvore de Natal
branca só como secundária, a principal tem de ser verdinha como manda a
tradição. O periquito, o cão e o gato, se os houvesse, também opinariam,
certamente.
Posto isto, vai-se adiando. E adiando. É certo que o
espirito de Natal vai para além da árvore, eu que o diga. Para mim, Natal é
dar. Se há coisa que gosto nesta época é escolher minuciosa e detalhadamente
cada prenda que compro de acordo com a pessoa a quem vou dar. Gosto de ver
aquela reação de satisfação na cara das pessoas que mais gosto, os olhinhos a
vibrar e uma legenda estampada na testa "epa, isto é mesmo a minha cara,
gosto de verdade". Isso faz-me verdadeiramente feliz.
Quando era mais miúda os Natais tinham outro encanto. O Avô
e a Avó, o patriarca e a matriarca respectivamente, conduziam todas as
operações. Não só as gastronómicas, onde se incluíam todas as doces tentações, carregadinhas de açúcar e calorias, mas também as logísticas. No salão daquela casa cabíamos uns 30 - não me lembro de alguma vez os ter contado mas julgo não estar muito enganada. Os avós, os pais, as tias, os maridos das tias, as primas - algumas ainda crianças - e os namorados das primas. Risos, gargalhadas, gritinhos de alegria, montes de gente a falar ao mesmo tempo, barulho e mais barulho e tudo de olhos despertos à espera da meia noite, hora em que alguém se mascarava de Pai-Natal para gáudio dos mais pequenos - como eu. Nós fazíamos a festa!Nunca mais me vou esquecer do dia em que o velho gorducho das barbas brancas deixou de me enganar, afinal era o meu próprio pai que se tinha esquecido de disfarçar o bigode, deixando a nu toda a sua identidade. Caiu-lhe a máscara para nunca mais voltar.
Agora acho que é tudo diferente. Já não conto os dias para receber aquele embrulho absolutamente gigantesco que tem o meu nome, não espio os presentes debaixo da árvores e quase sempre sei exactamente o que vou receber. Ou, pelo menos, desconfio. A minha lista de Natal, ao invés de páginas infindáveis, tem agora duas ou três coisas.Por outro lado, face aos tempos que temos vivido, já não se trocam prendas entre todos. Fazemos um amigo oculto para que cada pessoa receba apenas uma prendinha. As primas são agora adultas, passaram a ter mais família e a terem de se desdobrar por várias casas. Criança só há uma, que para felicidade dos adultos vem abrir as prendas em todas as casas por onde passa trazendo com ela aquele histerismo genuíno que faltava.
Crescemos. Tudo muda! Mas o aconchego da família à volta da mesa mantém-se. A caldeirada a ferver na panela também. E o farrapo velho - o que eu gosto do farrapo velho - também! O bolo-rei e o pão-de-ló também.
A ver vamos a quem sai a fava este ano!
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